AGROTÓXICOS

AGROTÓXICOS

Compilado de citações de José Lutzenberger sobre a questão dos venenos nos alimentos, edição elaborada por Lilly Lutzenberger • 01/06/2011

A agricultura, que deveria ser o principal dos fatores de saúde do homem, é hoje um dos principais fatores de poluição, uma das formas insidiosas de poluição. O leigo vê a fumaça que sai das chaminés, dos escapes dos carros, vê a sujeira lançada nos rios. Mas, quando compramos uma linda maçã na fruteira da esquina, mal sabemos que esta fruta recebeu mais de trinta banhos de veneno no pomar e, quando entrou no frigorífico, foi mergulhada em um caldo de mais outro veneno. Alguns dos venenos são sistêmicos. Quer dizer, eles penetram e circulam na seiva da planta para melhor atingir os insetos que se alimentam sugando a seiva. Não adianta lavar a fruta.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Um argumento muito usado pelos defensores dos agrotóxicos é a afirmação de Paracelsus de que veneno é questão de dose. Gostam de apresentar o exemplo do sal de cozinha. Um pouco de sal é indispensável à saúde, mas se eu comer 100 gramas de sal, morro de desidratação. O mesmo raciocínio se aplica à água. Ela é indispensável à vida, mas também poderemos morrer afogados. De fato, este raciocínio se justifica sempre que ele for aplicado à substâncias que normalmente fazem parte dos processos metabólicos dos seres vivos, sal, água, ácido clorídrico, amônia, ácido sulfúrico e outros, nitratos, uréia, etc. Mas este raciocínio não se aplica a biocidas, quer eles sejam naturais ou artificiais. O veneno da cascavel sempre faz mal, por pequena que seja a dose. Se a dose for muito pequena, o estrago pode ser pequeno e superável, mas não deixa de ser um estrago.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Uma alfinetada causa um estrago muito pequeno, não se compara a um golpe de adaga, mas é um estrago. E se levarmos diariamente uma nova alfinetada, especialmente se for sempre no mesmo lugar? Além disso: de uma alfinetada no traseiro, podemos rir, já no olho, é outra coisa. Assim, não são levados em conta os efeitos crônicos provocados pela ingestão dos agrotóxicos contidos nos alimentos. O que acontece após anos de ingestão diária de quantidades muito pequenas de um determinado veneno? Como ficam o fígado, os sistema renal, o sistema imunológico e outros?

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Se eu atropelar alguém com meu carro, não resta dúvida quanto a quem causou os ferimentos. Entretanto, se alguém estiver morrendo de câncer porque ingeriu durante anos quantidades muito pequenas de uma substância cancerígena, ou quando outro sofre de doença infecciosa porque está com o sistema imunológico destruído por carbamatos, torna-se impossível provar que a culpa é do respectivo agrotóxico. Os altos executivos da indústria química dormem tranqüilos.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Não somente os agricultores são mantidos na ignorância dos efeitos nocivos dos agrotóxicos e tornam-se assim as primeiras vítimas, mas os médicos que tratam das vítimas são mantidos na ignorância quanto aos aspectos toxicológicos dos novos produtos, dados que só a indústria conhece. Por isso são comuns tratamentos inadequados, pois o médico confunde os sintomas.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Além dos estragos ecológicos, o uso indiscriminado da química na agricultura, aliado a outros fatores, tem levado a uma situação de contaminação geral dos alimentos com resíduos de produtos sintéticos e outras substâncias.

“Agricultura ecológica”, 1982. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Hoje são raros os alimentos puros. Com a maioria deles ingerimos todo um espectro de substâncias estranhas à vida, muitas delas venenos insidiosos. É verdade que as doses são pequenas, quase homeopáticas, de modo a não causar dano imediatamente aparente. Mas a intoxicação é constante, cumulativa e descontrolada. Os efeitos são imprevisíveis.

“Agricultura ecológica”, 1982. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”,1985.


Na TV se podem ver anúncios como aquele do bebê dormindo enquanto a mãe aplica spray de inseticidas contra o mosquito em torno do berço. Quando acontecem calamidades evidentes, a indústria sempre procura culpar o que ela chama de “mau uso”. Mas esse mau uso é ela mesma quem promove com os anúncios criminosos que faz.

“Inseticidas domésticos”, 1981. Do livro “Manual de ecologia - do jardim ao poder”, 2004.


Infelizmente, os órgãos públicos aceitam, sem crítica, a filosofia da indústria química. Mas com a química só tratamos sintomas. Precisamos acabar com as causas. E precisamos de novas atitudes.

“Inseticidas domésticos”, 1981. Do livro “Manual de ecologia - do jardim ao poder”, 2004.


Os camponeses tradicionais, com sua sabedoria ancestral, sabiam que a praga não ataca a não ser as plantas que não estão bem equilibradas. Por isso, eles procuravam obter cultivos sãos através de um manejo adequado do solo, o que incluía descanso da terra, compostagem de resíduos vegetais e animais, adubação verde, adubação foliar, cobertura morta, rotação de cultivos, plantas companheiras e muitas outras práticas. Os agricultores biológicos modernos, com os conhecimentos científicos de hoje, obtêm resultados muito melhores.

“Colheitas e pragas, a resposta está nos venenos?” – 1983, revisado e ampliado em 1997.


Francis Chaboussou, um pesquisador francês no INRA (Institut National de la Recherche Agronomique), em seu livro propõe a teoria da "Trofobiose". Em sua expressão mais sucinta esta teoria diz que o parasita morre de fome na planta sã! Um aparente paradoxo.

“Colheitas e pragas, a resposta está nos venenos?” – 1983, revisado e ampliado em 1997.


O desequilíbrio ou destruição da microvida do solo pelo abandono da adubação orgânica e alimentação direta da planta com sais solúveis, assim como o uso intensivo dos herbicidas, tem como conseqüência o aumento da suscetibilidade às pragas e enfermidades. Surgem então os inseticidas, acaricidas, nematicidas, fungicidas e outros biocidas. Estes, por sua vez, levados ao solo pela chuva, contribuem a uma destruição ainda maior da micro-vida.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


O camponês tradicional e o agricultor orgânico moderno sabem que a praga é sintoma, não causa do problema. Com um manejo adequado do solo, adubação orgânica, adubação mineral insolúvel, adubação verde, consorciações, rotação de cultivos, cultivares resistentes e outras medidas que fortificam as plantas, eles mantém baixa a incidência de pragas e moléstias das plantas. O paradigma da indústria química não leva em conta estes fatores. Combate sintomas sem procurar as causas dos mesmos.

“A problemática dos agrotóxicos”, 1985. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


A agricultura ecológica, partindo de uma visão sistêmica ou unitária, isto é, uma visão de conjunto, na qual a propriedade agrícola é encarada como uma unidade funcional, um organismo, por assim dizer, sabe que fertilidade do solo e saúde da planta são fatores inseparáveis. Portanto, a preocupação fundamental do agricultor ecológico é manter e melhorar constantemente a fertilidade natural do solo. Ele sabe que a fertilidade do solo depende fundamentalmente de sua microvida. Um solo vivo também é muito mais resistente à erosão.

“Agricultura ecológica”, 1982. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


A agricultura ecológica não significa, como querem seus detratores, uma volta ao passado. Muito ao contrário, ela significa um passo importante para a frente. Os atuais conhecimentos científicos nos permitem fazer um trabalho infinitamente melhor que o de nossos avós, um trabalho bem menos duro e muito mais significativo.

Somente a agricultura ecológica é indefinidamente sustentável. Ela contribui para um futuro melhor para nossos filhos, porque melhora sempre a fertilidade do solo, enquanto que os atuais métodos são uma nota promissória contra nossos filhos. Uma nota que eles não terão condições de resgatar.

“Agricultura ecológica”, 1982. Do livro “Ecologia - do jardim ao poder”, 1985.


Seleção e compilação: Lilly Charlotte Lutzenberger
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× Projeto Gaia Village

Projeto Gaia Village

Gaia Village é um projeto de caráter privado com foco em sustentabilidade, que se desenvolve a partir de uma área pristina no município de Garopaba-SC. Ambiciona criar um exemplo de assentamento humano sustentável, um ambiente amigável para a interação entre a espécie humana e o todo — o Sistema Vivo Gaia.

As primeiras formulações para a concepção desse projeto foram feitas pelo professor José Lutzenberger, em 1997. O objetivo é propor, planejar, implementar e demonstrar soluções ambientalmente responsáveis, em direção a um desenvolvimento sustentável.

Consubstanciado fisicamente na propriedade da família Werlang e de sua empresa G.A. Werlang — Gestão e Ambiente Ltda., localizada junto à Praia do Ouvidor, Praia da Barra e Lagoa da Garopaba, no município de Garopaba, sul do estado de Santa Catarina, o projeto se estrutura a partir da concepção de vida pessoal de Carmen e Gastão Avelino Werlang, que já nos anos 60 promoviam ações com vistas à preservação ambiental.

O projeto, com iniciativas em curso em sua sede e junto às diversas comunidades do município de Garopaba, se expande por meio da construção e consolidação de redes e parcerias com indivíduos, comunidades, organizações não governamentais e órgãos do governo.

× Agricultura Regenerativa

Agricultura Regenerativa

A Agricultura Regenerativa consiste em promover a produção de alimentos saudáveis, a criação de ciclos fechados de geração de insumos a partir de resíduos e a aplicação no campo de práticas conservadoras da natureza.

Projeto: "Capacitação de Agricultores Familiares como Promotores da Agricultura Regenerativa no Rio Grande do Sul / 1997 - 1999"

Iniciamos um novo projeto de atuação junto a agricultores familiares do Estado do Rio Grande do Sul com aprovação parcial de orçamento por parte da instituição alemã Heinrich-Böll-Stiftung. Desta vez, selecionamos as propriedades que melhor responderam às nossas expectativas no projeto anterior para o aperfeiçoamento das técnicas de cultivo e, principalmente, para a realização de um treinamento direcionado à formação de alguns agricultores, como promotores da agricultura orgânica, garantindo a continuidade do processo, mesmo sem nosso envolvimento direto.

Concomitantemente, trabalharemos para a consolidação de algumas propriedades como referência em agricultura orgânica, nas quais se verificará o uso exclusivo de métodos regenerativos de cultivo.

Tratam-se de 163 famílias, em torno de 560 pessoas, distribuídas em 12 comunidades diferentes e organizadas em cooperativas ou associações. O grupo inclui agricultores de origem alemã, italiana, indígena, bem como assentamentos do Movimento dos Sem-Terra.

Neste primeiro ano realizamos os primeiros Encontros de Formação de Promotores Agroecológicos, abordando inicialmente conhecimentos agrícolas amplos para a compreensão do processo de produção. Na realização de cada módulo é finalizado com participantes uma apostila que deverá servir de material didático para os futuros promotores. Por demanda dos próprios agricultores, daremos ênfase às questões de oratória e desinibição na próxima fase.